RETOMAR O FUTURO: MEMÓRIA, EDUCAÇÃO E REEXISTÊNCIA NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DE GRAÚNA

Nome: RAPHAEL GRIFO MOREIRA

Data de publicação: 03/07/2026

Banca:

Nomeordem decrescente Papel
FLÁVIO DOS SANTOS GOMES Examinador Externo
OSVALDO MARTINS DE OLIVEIRA Presidente
RÉIA SÍLVIA GONÇALVES PEREIRA Examinador Externo

Resumo: Esta dissertação analisa a comunidade quilombola de Graúna, localizada em Itapemirim – ES,
a partir da articulação entre a abordagem dos agenciamentos, conforme desenvolvida por
Manuel DeLanda, e perspectivas decoloniais/contracoloniais, com destaque para autores
como Aníbal Quijano, Achille Mbembe e Malcolm Ferdinand. O objetivo é compreender
como se constituem os processos de identificação, memória, educação e resistência no interior
da comunidade, considerando-a um agenciamento heterogêneo, composto por múltiplos
elementos humanos e não humanos, atravessado por forças históricas, simbólicas, políticas e
materiais. Metodologicamente, a pesquisa adota abordagem qualitativa de inspiração
etnográfica, combinando observação participante, entrevistas com professores quilombolas,
lideranças e mestres de saberes tradicionais, análise documental e revisão bibliográfica. A
análise sugere que a identidade quilombola em Graúna não se configura como essência fixa,
mas como processo relacional e dinâmico, em consonância com as contribuições de Fredrik
Barth e Denys Cuche, sendo continuamente construída e disputada no interior de relações
sociais marcadas pela colonialidade do poder. Observa-se que a certificação pela Fundação
Cultural Palmares desencadeou tanto o acesso a políticas públicas quanto tensões relacionadas
à persistência de uma “identidade negativa”, nos termos de Pierre Bourdieu, e a uma
associação com memórias da escravidão, mobilizando, nesse sentido, a noção de “memória
herdada”, conforme Michael Pollak. Nesse contexto, sugere-se a emergência de estratégias de
ressignificação que convertem o estigma em afirmação identitária e política. Destaca-se o
papel da escola quilombola como espaço de “tradução” e “confluência” de saberes, conforme
proposto por Antônio Bispo dos Santos, que pode ser interpretado como um “Centro de
Ciências e Saberes”, como os estudados em outras comunidades quilombolas por Alfredo
Wagner Berno de Almeida, articulando os conhecimentos eurocentrados presentes na BNCC
aos saberes tradicionais locais. As práticas pedagógicas, incluindo iniciativas como a horta
quilombola e a participação de mestres de saberes tradicionais (“griôs”), evidenciam a escola
como território de produção de memória, valorização cultural e construção de futuros
possíveis. Por fim, o trabalho sugere ainda que, mesmo inserida em estruturas marcadas pela
colonialidade, a comunidade de Graúna demonstra produzir estratégias cotidianas de
resistência e reexistência, ressignificando memórias, reconstruindo identidades e abrindo
caminhos para “retomar o futuro”.

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