O projeto de extensão Processo Global de Produção do Capital e Luta de Classes, desenvolvido na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) – Departamento de Ciências Sociais - integra uma ação interinstitucional ampliada de estudos sistemáticos da obra O Capital, de Karl Marx. A iniciativa articula universidades públicas brasileiras por meio de projetos de extensão e grupos de pesquisa dedicados à formação crítica e ao aprofundamento da crítica da economia política.
No âmbito dessa articulação em rede, será ofertado o Curso de Extensão “Leitores/as de O Capital – Livro I”, reunindo docentes de diversas instituições federais que compõem essa parceria acadêmica, entre elas UFRGS, UFES, UnB, UFMT, UFPA, UFT e UFF.
O curso terá início em 08 de abril de 2026 e seguirá até 21 de outubro de 2026, com encontros síncronos quinzenais, às quartas-feiras, das 9h30 às 11h30.
As atividades serão realizadas em plataforma online (Google Meet), possibilitando a participação de estudantes e interessados de diferentes regiões do país.
A proposta é formar leitores e leitoras capazes de compreender os fundamentos da crítica da economia política desenvolvida por Marx, especialmente os conceitos centrais do Livro I, como mercadoria, valor, mais-valia, jornada de trabalho e acumulação do capital. A leitura será coletiva e orientada por professores pesquisadores integrantes da rede interinstitucional, promovendo diálogo qualificado e reflexão crítica sobre as dinâmicas estruturais da sociedade contemporânea.
O curso é aberto à comunidade acadêmica e ao público em geral e contará com certificação de 86 horas para os participantes que cumprirem os critérios de frequência e participação.
As inscrições estarão abertas de 02 de março a 21 de março de 2026, por meio do site da Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS (PROREXT).
Link para inscrição: https://www.ufrgs.br/prorext
Contato: lermarx.2026 [at] gmail.com
A iniciativa reafirma a extensão universitária como espaço público de formação intelectual, democratização do conhecimento e articulação interinstitucional, fortalecendo a construção de uma rede permanente de estudos sobre a obra de Marx nas universidades públicas brasileiras.
Promover a leitura sistemática de O Capital, de Karl Marx, no interior da universidade pública, no contexto atual, significa reafirmar o compromisso da instituição com a formação crítica, rigorosa e socialmente referenciada. Longe de ser a retomada meramente histórica de um clássico do século XIX, trata-se de oferecer instrumentos teóricos fundamentais para compreender os processos sociais contemporâneos em sua complexidade estrutural.
Vivemos uma época marcada por profundas transformações no mundo do trabalho e nas relações sociais. O avanço acelerado das tecnologias digitais, da inteligência artificial e da automação tem reorganizado os processos produtivos, ampliado a produtividade e alterado as formas de exploração e controle do trabalho. Ao mesmo tempo, observamos o crescimento do desemprego estrutural, do subemprego, da informalidade e da instabilidade laboral. A promessa de que o progresso tecnológico reduziria o tempo de trabalho e ampliaria o tempo livre não se concretizou de maneira universal; ao contrário, o que se verifica é a intensificação dos ritmos de trabalho, a ampliação de metas e o aumento da pressão sobre trabalhadores e trabalhadoras.
As crises econômicas contemporâneas — financeiras, produtivas, energéticas e sociais — evidenciam contradições que não podem ser compreendidas apenas por fatores conjunturais. A concentração e a centralização do capital, a financeirização da economia e a ampliação das desigualdades exigem uma análise estrutural sobre como a riqueza social é produzida, apropriada e distribuída. O Capital fornece categorias fundamentais para entender como as crises emergem das próprias dinâmicas internas do sistema e como se articulam produção, circulação e poder.
Além disso, a atualidade da obra se revela também na questão ambiental. A expansão permanente da acumulação capitalista está diretamente relacionada à exploração intensiva da natureza, à expropriação de territórios, à devastação ambiental e às crises climáticas. A busca incessante por crescimento e valorização do capital pressiona recursos naturais, reorganiza territórios e aprofunda conflitos socioambientais. A leitura de O Capital permite compreender que a crise ecológica não é apenas resultado de falhas técnicas ou comportamentais, mas está vinculada à lógica histórica de produção e apropriação da riqueza.
No plano geopolítico, a análise torna-se igualmente indispensável. A América Latina ocupa posição estratégica no sistema internacional como fornecedora de matérias-primas, energia, alimentos e biodiversidade. Os processos históricos de colonialismo, dependência e imperialismo estruturam formas de inserção subordinada da região na divisão internacional do trabalho. A disputa contemporânea por recursos minerais estratégicos, terras raras, petróleo, água e alimentos recoloca a região no centro das tensões geopolíticas globais. Ler O Capital possibilita compreender como a expansão do capital se articula à apropriação internacional de recursos materiais, à formação de blocos de poder e às relações desiguais entre centro e periferia.
A leitura da obra também ilumina fenômenos sociais centrais da atualidade, como o encarceramento em massa, a criminalização da pobreza, as políticas de controle social e as desigualdades estruturais de gênero, raça, etnia, entre outros. Esses processos não podem ser analisados isoladamente; estão articulados às formas históricas de organização do trabalho, à divisão social da produção e às dinâmicas de poder que atravessam a sociedade.
Num cenário marcado pela circulação acelerada de informações e pela cultura do imediatismo, a leitura aprofundada de uma obra complexa como O Capital representa também a defesa do tempo da reflexão, do estudo rigoroso e da formação intelectual sólida. Trata-se de fortalecer a capacidade analítica, a argumentação fundamentada e a compreensão histórica das transformações sociais.
Ler O Capital hoje é interrogar o presente com densidade teórica: por que a produtividade cresce enquanto a desigualdade se amplia? Por que a tecnologia avança e o trabalho se torna mais precário? Por que as crises ambientais se intensificam? Por que a América Latina permanece em posição estratégica e disputada no cenário internacional? Por que as crises econômicas se repetem? Essas questões permanecem centrais para compreender o desenvolvimento das relações sociais contemporâneas.
A universidade pública, enquanto espaço de produção de conhecimento e formação cidadã, deve oferecer instrumentos que permitam enfrentar tais desafios em sua dimensão histórica, econômica, ambiental e geopolítica. Promover um curso de leitura de O Capital é, portanto, reafirmar a função pública da universidade: formar sujeitos críticos, capazes de compreender a totalidade das relações sociais e contribuir para o debate qualificado sobre os dilemas sociais, políticos e estruturais do nosso tempo. Sobretudo formar sujeitos críticos para a construção de respostas qualificadas e comprometidas com a transformação social.
Raquel Sabará
Professora – Departamento de Ciências Sociais / UFES
Coordenadora do projeto de extensão Processo Global de Produção do Capital e Luta de Classes.